Even though I might, even though I try
I can't
Este texto é puramente reflexivo e pessoal.
Ontem eu me mudei para uma cidade grande novamente. Estava morando em uma pequena cidade do interior, mas minha mãe decidiu mudar por oportunidades de emprego e de estudo.
A viagem foi uma loucura total! Viemos no mesmo caminhão que fez a nossa mudança. Tivemos que ficar no banco da frente: minha mãe, minha pequena cachorrinha e eu. A viagem foi tranquila, a cachorra conseguiu dormir em um dos bancos tranquilamente, inclusive. Não era o ideal, mas, foi o único jeito que encontramos.
Aliás, falando em dormir, tivemos que dormir nos bancos. O motorista fez uma pausa em um posto de gasolina porque ele precisava descansar (além de fazer a mudança, ele trabalha com entregas), então, aceitamos em esperá-lo e (tentamos) dormir também. Dormir sentada foi uma experiência péssima!
A viagem levou cerca de doze horas por conta da pausa. Chegando aqui, ainda machuquei meu pulso na hora de descarregar a geladeira.
Aproveitei para fazer uma faxina e organizar conforme o possível, pois não trouxemos imóveis além de uma cama e uma mesinha.
Enquanto fazia a faxina, vinha à mente diversos pensamentos, tanto da mudança, quanto da minha vida pessoal. Pensamentos assim são normais, inclusive, há um texto muito interessante doVinizinhosobre.
Estava em um estado de fluxo. Fiz tanta coisa (mesmo tendo dormido pouco) que, quando finalmente deitei, simplesmente capotei. Ver a casa naquele estado estava me incomodando profundamente. Eu precisava dar um jeito.
Acho que esta vontade que tive de organizar a casa era, também, uma busca incessante em organizar a minha mente. Talvez, minha vida.
Realmente, não está fácil para ninguém a vida neste estado do capitalismo tardio (apropriando-me deste termo, se me permitem). Todos estamos com problemas, com incertezas quanto ao futuro, "entre o talvez e o se". Mas, eu realmente tenho medo do meu futuro, além de que eu sempre julgo que as coisas não estão como deveriam estar, e que parte disto é culpa minha.
Tendo um olhar crítico, sei que não é bem assim, porém, o lado sentimental pesa mais. Eu sinto que tudo que eu faço não é o suficiente, mesmo que eu tente muito. Ao mesmo tempo, com a maldição que tenho desde pequena em me comparar com os outros, sinto que eu podia ter me esforçado mais.
Sinto que eu tenho uma dificuldade enorme em compreender e terminar coisas. Todo mundo faz as coisas com excelência, mas eu não. Isto varia desde em fazer desenhos até compreender assuntos mais complexos. Parece que todos estão na minha frente e eu não consigo acompanhá-los, porque eu perdi o bonde ou pulei fora quando desisti.
Eu desisto fácil das coisas por não me acho capaz, ou acho que já gastei muito do meu tempo. Tenho medo de explorar o novo porque tenho medo de "bater a cara" como das outras vezes.
Acho que parte destes pensamentos vêm da minha situação atual: eu vou fazer 20 anos e, por incrível que pareça, ainda estou no ensino médio. E não, eu não repeti de ano, apenas tive muito azar.
Minha avó ficou ruim lá em 2023. Nos mudamos de cidade para que pudéssemos cuidar dela. Por conseguinte, tive que trocar de escola. Porém, eu não estudo em uma escola pública tradicional, mas, sim, no IF. E a troca de campus é também uma troca de grade curricular do curso técnico e, consequentemente, incansáveis horas complementares a serem cumpridas de matérias diferentes.
Comecei a estudar de manhã e de tarde, voltando para casa só de noite. Tinha dias que eu saía de casa às 5h para voltar para casa só às 20h30. Tinha aula com 4 turmas, de dois cursos diferentes: mecatrônica e informática (o meu curso). E, como se não fosse o bastante, o campus que fiz a transferência tinha um ano a mais do que o meu.
Infelizmente, no ano retrasado, minha avó veio a falecer, juntamente do meu tio. Eu não queria ficar naquele lugar mais. Decidi que queria voltar para o meu campus antigo. Isto me custou ficar um ano a mais do outro campus devido a mais cargas horárias a serem cumpridas. Sim, eu troquei de campus duas vezes: fui e voltei. O campus que estudo atualmente me agrada mais que o outro, além de que, na cidade da minha avó, eu não estava bem, estava afetando a minha saúde mental a ponto de ter episódios depressivos, pensamentos suicidas e experiências semelhante às de despersonalizações. Preferi fazer dois anos a mais do que ficado naquele lugar.
Não me arrependo, porém, não tem como disfarçar esta tristeza que sinto em não ter terminado o ensino médio ainda, em não conseguir emprego por ficar em um alojamento distante da cidade, ter que estudar nos dois períodos que a maioria das vagas contratam... E, nestes meus cinco anos de IF (de 2022 até este ano), eu acabei percebendo que eu não quero seguir na área do meu curso, mas continuo porque quero ter o certificado (minha mãe também não ficaria muito contente se eu desistisse agora, mesmo que eu já tenha esta conclusão desde 2023).
Não quero seguir na área justamente porque não acho que seria uma boa profissional. Claro que a perfeição vem com a prática, mas eu já estudei tanto durante estes anos que eu já não vejo esperança e já não tenho o mesmo gosto de antes. E não que eu tire notas ruins, muito pelo o contrário, tenho boas notas nas matérias do técnico, mas, não me acho capaz para uma vaga. São vários frameworks que eu nem sei o nome, linguagens de programação, experiência... Teria que estudar mais!
Comecei a estudar tecnologias desde 2019 e ainda sinto que estou no mesmo lugar. Tentei participar de olimpíadas e nunca fui muito bem. Tentei desenvolver para os outros e não me senti realizada, nem mesmo recebi um pagamento. Estudei com afinco linguagens como C++, porém, não me lembro de mais nada. Perdi toda a vontade, o gosto e o desejo de continuar.
Eu sinto que estou perdendo o meu tempo. Enquanto estou desnorteada, meus amigos já estão na faculdade, trabalhando, tendo o dinheiro próprio deles e até morando sozinhos, e eu, mesmo sendo a aluna que tirava as melhores notas e até explicava a matéria e fazia a atividade dos outros, não tenho nem uma bolsa de estudos que consiga me manter no alojamento, tendo que depender da minha mãe, que já trabalha tanto...
Claro que eu não estou com inveja, fico muito feliz pelos meus amigos e colegas, só que eu não consigo parar de me comparar e me sentir mal.
Eu me sinto inútil,"um pedaço de carne andante".
Ainda tem a questão da minha identidade de gênero, fico com uma síndrome do impostor enorme, não tendo certeza do que eu sou, além de ter insegurança para começar a minha transição de gênero, seja pelo ambiente que estou inserida no alojamento, seja por falta de dinheiro e apoio familiar.
Isto só me causa mais ansiedade, porque eu não sei para que rumo quero seguir. E quando eu terminar o ensino médio com meus vinte e um anos? Vou conseguir emprego? Vou fazer faculdade? Vou finalmente começar minha terapia hormonal que eu tanto desejo? Será que eu deveria já estar estudando para algo que poderia mudar minha vida, mesmo que eu não saiba o que é?
E esta ansiedade tem duas consequências: o sentimento de procrastinação e pensamentos ruminantes. Fico o dia inteiro tentando fugir destes pensamentos com tarefas que exijam tempo, como este site ou com faxinas longas e desnecessárias. Também fico remoendo erros do passado. Sinto tanto remorso que acaba sendo debilitante às vezes, porque eu me sinto uma aberração (mesmo que os outros não achem e digam que estou exagerando).
Sim, me sinto uma inútil. Bem, por certo lado, somos todos inúteis, ou melhor,a vida não é útil.Mas não me refiro a este sentido, mas sim da sensação de querer produzir e ser proletária mesmo. De poder me sentir útil para a minha mãe, em ter meu dinheiro prórpio... Não que eu queira ser mais uma engrenagem desta máquina de fazer carnificina do capitalismo, mas eu não aguento mais a distância, o ostracismo. Tudo parece tão difícil e complicado...
Eu realmente tentei e sigo tentando. Talvez, apenas estou com muita pressa. Talvez possa seguir em outro ramo da área, fazer um licenciatura para dar aula, visto que eu já dei monitorias em uma matéria do técnico e gostei da experiência, ou, aproveitar o certificado que irei adquirir ano que vem e acabe entrando em alguma empresa com um cargo de assistência/gerência/atendente. Sei que é possível, eu só tenho que aguardar a minha hora e ter menos medo de fracassar.
Algo novo que estou tentando, também, é desenvolver a minha escrita, talvez seja útil no futuro, além de ser um boa forma de terapia.