O Mundo Assombrado Pelos Demônios

Data:


E perguntou-lhe:

— Qual é o teu nome?

E lhe respondeu, dizendo:

— Legião é o meu nome, porque somos muitos.

Marcos 5:9

 Escrever sobre este livro é uma tarefa bem difícil. O livro, além de ser um calhamaço, é muito completo. Portanto, apenas pincelarei alguns dos pontos dos quais chamaram a minha atenção e que acho que devem ser compartilhados em um texto menor.

 Devido à completude do livro, provavelmente, aos poucos, irei atualizar este texto, acrescentar novas informações. Meu objetivo é criar um guia de fácil acesso ao ceticismo. Provavelmente, conforme eu for me aprofundando no assunto, atualizarei àquilo que estiver equivocado da minha parte.

 De início, devo salientar a importância de questionar. Este livro nos ensina a duvidar, tanto das novas informações que recebemos, quanto das nossas crenças. Questione sobre as informações que trarei, confira as fontes. É normal cometer erros, e farei o possível para não passar informações erradas, mas, é importante que você também tome esta atitude.

O pensamento científico

 Vivemos em um sistema capitalista que, devido à sua lógica de consumo já muito bem tratada por pensadores como Marx, acaba criando valor em coisas subjetivas, transformando-as em objetivas. Percebemos isso facilmente ao pensar, por exemplo, em como preenchemos nosso vazio através da mercadoria: redes sociais, produtos tecnológicos, alimentos... enfim, tudo àquilo que libere dopamina. Até emoções, como a nostalgia, torna-se uma mercadoria, como as novas tendências da moda que remetem aos anos 80, 90 (vide Y2K) e 2000 (vide Frutiger Aero).

 A informação se transforma em uma mercadoria. Na tentativa de lucrar, os algoritmos e a mídia, direta ou indiretamente, fomenta as fake news, por serem mais chamativas, e as pseudociências, por parecerem verídicas e darem uma sensação de confiabilidade. É mais fácil acreditar em coisas extraordinárias do que em coisas que sejam mais simples ou que exijam um conhecimento maior. É mais fácil crer em pessoas que esnobam títulos, ou que afirmam que presenciaram situações paranormais do que correr atrás para averiguar as fontes.

 E em um mundo onde não somos incentivados (ou não aprendemos) como averiguar fontes, acreditamos facilmente em qualquer coisa que manipule nossas emoções e que preenchem nosso vazio. Daí que vemos pessoas que são manipuladas por filmes como "O Segredo" ou o "Quem Somos Nós?", ou os que "acreditam" na mecânica quântica e no seu "poder" de mudar a realidade através do pensamento (mesmo que a mecânica quântica não esteja relacionada com coisas macroscópicas ou com a psicologia)...

 Ter um pensamento crítico é não aceitar qualquer coisa que nos seja dita simplesmente porque pareça convincente. E não é que pessoas céticas neguem qualquer conhecimento ou qualquer ideia nova, a diferença é que, para que possamos acreditar em algo, elas precisam ser autoevidentes. Sabemos que, se soltarmos alguma coisa, uma hora ela atingirá o solo, variando a sua velocidade de queda devido à resistência do ar. Sabemos que o vento existe porque sentimos. E, para tudo isso, há explicações científicas que fazem sentido, porque a ciência tenta explicar os fatos através das evidências, e não o contrário.

 A pseudociência parece verídica porque expropria de forma errônea de explicações dada pela a ciência para os eventos da natureza. Expropria para tentar, a todo custo, explicar suas ideias. É assim que pessoas como Hélio Couto, um coach, usa do experimento da dupla fenda para falar do poder da mente, mesmo sem entender o experimento, ou pessoas usam da biologia para passar desinformação sobre questões de saúde, criando pânico moral.

Tirinha que mostra a diferença entre o método científico e o método criacionaista. No primeiro quadro, temos duas cientistas em um laboratório. Uma diz: 'Aqui estão os fatos. Que conclusões podemos tirar deles?' No segundo quadro, temos dois criacionistas. Um mais velho diz: 'Aqui está a conclusão. Que fatos podemos encontrar para suportá-la?', enquanto segura um livro com o título: 'GÊNESIS'.

 A pseudociência não é confiável porque se baseia na crença. Acredita-se em uma ideia e depois tenta sustentá-la com teorias. Isso não é científico, muito menos confiável. Não se deve acreditar nas coisas, devemos saber como elas funcionam.

 Alguns ainda usam da pseudociência e de crenças para dar explicações a coisas que não entendemos ou que a ciência explorou pouco. Daí surge uma falácia famosa: o Deus das lacunas. Funciona assim: se algo ainda não pode ser explicado, logo, apenas [insira uma crença aqui] pode explicar. Geralmente, a lacuna é preenchida por deuses ou pelo design inteligente. Mas a ciência também não funciona dessa maneira. Como raios então funciona a ciência!?

 A ciência usa do método científico, e é isso que a torna confiável. A ciência não cria uma verdade a ser acreditada, muito pelo contrário: ela observa os fatos, cria uma hipótese sobre seu funcionamento, faz experimentos, analisa os experimentos, os repete, chega a uma conclusão, divulga esta conclusão e, caso outro cientista encontre uma explicação melhor e mais simples ou se ela se mostrar falsa, ela é substituída.

 Portanto, se as ideias de Darwin sobre a evolução das espécies desacreditaram as ideias de Lamark, ou se a relatividade geral de Einstein esclareceu as ideis de Newton, é porque a ciência se complementa, evolue e não adquire verdades universais. Isso é diferente de trocar a religião pela ciência, pois não há crenças na ciência, ou verdades absolutas, apenas umas várias explicações que funcionam. A pseudociência nem sempre funciona, e também não se sustenta com o aparecimento de novas ideias.

 Essa forma um tanto quanto primitiva da ciência, é a coisa mais poderosa que temos. Foi com ela que levamos o homem à Lua ou criamos a bomba atômica. É a única vela que temos que nos guia entre a escuridão do desconhecido, e a ferramenta que exorciza as assombrações do nosso mundo. Mas parece mais apetitoso àquilo que consola fácil o coração e preenche o vazio do que a verdade, que dói. Por isso, além da ciência, se faz importante a filosofia e a consciência de classe para lidarmos com o nosso vazio, construirmos sentido a nossa vida e entender a nossa posição no mundo. A filosofia e o materialismo-histórico-dialético também se relacionam ao pensamento crítico e à observação, bases do pensamento científico.

Os demônios que nos rodeiam (ALERTA DE GATILHOS)

 Carl Sagan mostra como a nossa mente pode nos enganar. E é isso que eu acho de mais fascinante no ser humano: a nossa mente! Ela é capaz de nos fazer alucinar e criar imagens que, mesmo que internas e projetadas pela nossa mente, parecem tão reais... Lembro-me, quando criança, via coisas estranhas, como monstros e demônios, na hora de dormir. Não, não estava possuída, pois estava consciente, e àquelas coisas não eram reais, porque só eu via (minha mãe sempre dizia: "isso é coisa da sua cabeça!") Então, o que explica isso?

[ALERTA DE GATILHO: ABUSO SEXUAL E MORTE]

 Bem, meu pai tinha falecido a poucos anos, e havia algumas outras coisas estavam me estressando naquele momento difícil, como ter sido abusada sexualmente aos 10 anos. Para uma criança, essas situações podem gerar alucinações, sem contar que, para uma criança, é mais difícil distinguir a realidade dos sonhos.

 Frequentemente temos ilusões, confundimos nossos sentidos e interpretamos de outra forma que não condiz com a realidade, como confundir objetos com insetos.

 Soma-se as alucinações e ilusões com transtornos mentais e temos um leque de percepções únicas da realidade. E é por isso que testemunhas NÃO são provas. Não é porque alguém viu discos voadores no céu ou demônios nos pés da sua cama que àquela experiência foi real. A nossa mente é incrível, e é até difícil para a ciência explorá-la às vezes. Por isso que eu, particularmente, não tenho crenças no sobrenatural. Não confio nos meus sentidos, pois sei que posso me equivocar, assim como os outros.

 Era comum, na década passada, pessoas afirmarem que foram abduzidas por alienígenas, e que os alienígenas fizeram experimentos que envolviam partes íntimas. De forma semelhante, haviam relatos parecidos antes dessa coisa de extraterrestres ser famosa, só que, ao invés de aliens, eram demônios. Na Idade Média, íncubos e súcubos eram demônios que atraíam mulheres e homens, respectivamente, para também ter experiências sexuais. A polução noturna também era vista como algo relacionado à esses demônios, bem como o surgimento das bruxas.

 Isso foi utilizado de pretexto para uma das maiores barbaridades da história: o assassinato e as torturas em massa feita contra as mulheres. Mulheres que eram acusadas de bruxas eram brutalmente torturadas e mortas na fogueira. O livro O Martelo das Feiticeiras era um manual inquisitorial. Era um dos manuais mais cruéis. Havia, também, diversos métodos de tortura cruéis, feitos para que as mulheres, inocentes, confessassem ser bruxas. Confessando ou não, eram abusadas, humilhadas, torturadas e mortas. E toda essa crueldade era usada não só para impor poder, como também para controlar as supostas bruxarias. Para mim, essa é a verdadeira manifestação do mal, e me faz sentir ódio genuíno das religiões.

 Voltando para as expeiências místicas de que estava tratando, parece que há um padrão quanto a essas aparições sobrenaturais, e todas elas se moldam ao tempo e ao repertório cultural de uma sociedade. Afinal, onde que é tratado sobre os discos voadores na Idade Média? Ou, onde é tratado sobre a materialização de espíritos em tempos remotos? Hoje, conseguimos explicar a maioria dessas coisas através do entendimento da nossa mente: paralisia do sono, alucinações, ilusões, transtornos mentais... Por que seria diferente para com os feiticeiros, médiuns?

 Há também a questão das curas milagrosas. O que explica os milagres? Temos que entender um pouco sobre o efeito placebo e sobre as enfermindades psicogênicas (há um vídeo interessantíssimo sobre do Pirulla). Podemos, em até certo nível, estimular processos químicos em nosso corpo ao acreditar na eficácia de algum remédio inócuo ou algo além, como, por exemplo, pastores, curandeiros, deuses, etc.

 Mas, esse efeito não cura por si só. O corpo consegue, naturalmente, em certo nível, curar-se. Inclusive do câncer! Tudo graças ao sistema imunológico.

 Isso NÃO significa que devemos confiar no nosso corpo caso tenhamos um câncer, por exemplo, apenas que não é fantástico alguém conseguir se recuperar de doenças apenas com o sistema imunológico.

 Há também sintomas (como dores) que aparecem devido à fatores emocionais e psicológicos. Em certo nível, as crenças podem ajudar a pessoa a lidar com esses sistomas, apesar que profissionais da saúde são mais indicados para esses casos.

 A nossa mente e o nosso corpo já são explêndidos por si só, e são tão misteriosos quanto. Definitivamente não precisamos de poderes sobrenaturais para lidar com doenças e outros males de saúde. A medicina já é eficiente por si só, e evolui a cada dia com o avanço da ciência e da tecnologia.

A sutil arte de detectar mentiras

 Carl Sagan, no capítulo de mesmo nome deste tópico, nos ensina a detectar mentiras. É importante, além de questionar qualquer ideia nova, é saber identificar possíveis argumentos falhos, ou falácias. Por agora, irei apenas citar alguns e dar uma breve descrição de cada um. Recomendo que você pesquise, caso se interesse. Recomendo este artigo.

 Essas são apenas algumas das falácias comuns que, se identificadas, nos ajudam a averiguar a veracidade de um argumento. Aprendê-las é importante para quando for a nossa vez de debater ideias com outras pessoas. Ter esse tipo de conhecimento é essencial à todos!

Finalização

 Por enquanto, estes foram os tópicos dos quais eu gostaria de compartilhar por agora. Ainda quero tratar de outros assuntos, como as contradições entre crenças, o paradoxo de Epicuro, os perigos reais da ciência quando usada de forma antiética, como deixar de combater os absurdos das crenças é consentir que elas existam... Mas, por agora, gostaria de ressaltar a importância de compartilhar o pensamento cético.

 Em um mundo onde a verdade é reescrita, onde a história é reformulada pela mídia e onde tentamos preencher nosso vazio a todo custo e fugir do tédio (uma verdadeira distopia como a de 1984), questionar é transgredir com esses paradigmas.

 O pensamento crítico é perigoso porque nos liberta, abre os nossos olhos para o que outrora não era bem visto. Essa é uma das poucas ferramentas que temos inerente à nós e que é capaz de promover progresso a sociedade. Não há tabus, perguntas erradas, crenças ou temas delicados, todas as pautas podem ser debatidas, averiguadas.

 Leia mais, se informe, questione, proponha soluções, discuta, teste, divulgue, porque essa é a única vela que temos em meio as assombrações que nos atormentam nos dias de hoje.

"Não basta apreciar a beleza de um jardim, sem ter que imaginar que há fadas nele?"

O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams (1979)

 P.S: Hoje é sexta-feira 13 wooowowoowoow xD


Voltar ao início