Ontem eu tive uma epifania quanto ao meu gênero. Para mim, não fazia sentido existirem pessoas cis e trans se gênero é uma construção social. Eu parti de uma leitura mais existencialista: se primeiro existimos e depois nos tornamos (Beauvoir já dizia que não nascemos mulher, e sim nos tornamos), então, porque nós nos sentimos pertencentes ou não a um gênero?
Então eu fui estudar um pouco de biologia. Eu entendi que todos nós temos a nossa identidade de gênero, que é inato, e está relacionado quanto a nossa percepção de nós mesmos. Isso parece óbvio, porém, o que realmente estava me confundindo era quanto aos papéis sociais. Creio que a incongruência de gênero é percebida quando temos contato com os outros, quando nos socializamos, pois, nos é imposto como devemos nos comportar, do que devemos gostar, etc. Perceber também que o nosso corpo não se alinha às nossas expectativas causa disforia. Bem, como diria Sartre, o inferno são os outros.
Se é na socialização que o conceito de gênero é construído, naturalmente, sociedades diferentes têm percepções de gênero diferentes também. O que era ser homem para a nobreza europeia dos séculos passados? Quais eram os papéis das mulheres na pré-história, em um modelo de sociedade matriarcal? Fica claro que, em qualquer sociedade, havia uma construção de gênero, assim como havia pessoas que se identificavam de diferentes formas. Na própria América havia diversos gêneros além dos binários homem e mulher, mas isso mudou com a colonização.
Portanto, fica claro que gênero tem uma base biológica, mas sinto que o gênero é algo tão abstrato quanto a língua: todos os humanos tem a capacidade de falar, mas tal comportamento só é desenvolvido em sociedade e, a partir desse conceito abstrato, ele toma uma forma e ganha papéis.
Então sim! Gênero é uma construção social, mas a identidade de gênero, não. Isso não soa contraditório, apenas se manifesta de forma dialética entre o indivíduo e a sociedade.
Quanto a mim, percebo cada vez mais que sempre questionei esse meu papel de ser “homem” que me foi imposto. Ser trans é, de certa maneira, transgredir os paradigmas de uma sociedade patriarcal. Agora só preciso de um tempo para saber se sou uma mulher trans ou se sou algo além do campo binário. De qualquer forma, sinto-me melhor expressando de forma feminina.
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